Família do-ré-mi-fá

Archive for abril 2013

Para Eric:

Hoje o levei à escola. Adoro levá-lo à escola!
Seu irmão havia dormido e Adriana não podia deixar o Fred sozinh pra te levar. Usei minha hora de almoço e fui pra casa te buscar. Era por volta de 13h.

Quando cheguei, você logo me perguntou se eu tinha trazido do Hortifruti o biscoito que parece “rolo de papel higiênico”.
É verdade, lembrei, você tinha me pedido hoje de manhã, quando eu saía de casa. Eu prometi trazer, mas seria à noite, filho, quando eu voltasse do trabalho. Reforcei a promessa pra de noite. E prometi, à mim mesma, não esquecer.

Passei no quarto pra olhar seu irmãozinho dormindo, fechei a persiana pra deixar mais escurinho, te peguei pela mão e saímos pra escola.

No caminho, atravessando a rua, te mostrei um cocô de cachorro na calçada e aproveitei pra reforçar meu discurso de que a rua é suja. A partir daí, deu-se um diálogo inimaginável:

– Viu filho, quando eu digo pra você que a rua é suja? Os cachorros fazem cocô na rua, fazem xixi na rua, as pessoas cospem na rua…
– E os cachorros também lambem a rua, né?
– Os cachorros? É…não sei, mas é possível que sim. Você já viu cachorro lambendo a rua?
– O meu cachorro lambia…
– Que cachorro, Eric? Você não tem cachorro.
– Eu tinha. Mas era com uma outra família.

Fiquei pasma. Você estaria recordando outra vida? Engoli a seco e tentei puxar mais informações.

– Que outra família, filho? Conta mais!
– Ah, era uma outra família, num outro planeta.
(pra você, outro país é “outro planeta”)
– Me conta mais dessa família, filho…
– Ah, mamãe, não era você e o papai. Era uma família que eu já tive várias vezes…
– Já teve várias vezes?
– É, várias vezes.
– E tinha um cachorro?
– Dois cachorros.

A esta altura, já chegávamos na escola e você demonstrava imapciência com o meu interrogatório.

– E o nome do seu pai qual era?
– “Lohan”
– Luan?
– Não! “Lo-han”! (impaciente)
– Lorran?
– LO-HAN! (enrolando a língua)
Desisti de entender a pronúncia. Afinal, eram de outro “planeta”
– E os cachorros?
– Chuck e Lori.
– E a mãe?
– Mriai…(algo com M, que eu não entendi)
E nessa hora a professora te chamou, você se distraiu com a feira de livros, e eu resolvi te deixar em paz com este assunto.

Deixei você na sala de aula, saí da escola e liguei pra sua avó pra contar sobre sua outra vida, numa outra família, que você já teve várias vezes, e do teu cachorro que lambia a rua.
Não imaginava que com 4 anos você ainda tivesse recordações dessa natureza. Ficamos, eu e tua avó, impressionadas.
Outra hora, quem sabe, você me conta mais.

Por hora, já fico feliz por ter aparecido um vendedor de biscoitos casquinha de sorvete, justamente no sinal em que eu desço do ônibus, voltando pro trabalho. Parece até que botaram o vendedor lá pra eu não esquecer teu pedido. Então é isso, filho: mais tarde, chego aí com teu biscoito “cone, que nem rolo de papel higiênico”.

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  • João Lopes: Silvia (permita-me chamá-la assim), eu não conhecia as coisas lindas (filosóficas de precisão!) que escreve, porém, depois de receber um e-mail d
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